Faça o que eu digo…

…22:37h, terça-feira.

E a conversa (discussão nervosa) continuava:

–       Mas Comandante, repelia o Tenente e um Sargento;

–       Não tem mas, vocês vão entrar por ali e vão fazer o que eu estou mandando.

Nessa hora, o 14 olhou para a face do Tenente e como numa combinação prévia, assentiu com a cabeça.

–       Ok Chefe, o Sr. é quem manda.

Lá na última posição protegida, os dois, o Tenente e o Sargento, utilizando o quadro branco, explanaram o planejado, pelo Cmt. Obviamente, todos manifestaram suas preocupações em relação ao planejamento “imposto“ ao grupo naquela hora.

Planejamento feito por quem não vai executar.

Um momento nesta narrativa.  Situação envolvendo 3 reféns, com aproximadamente 6 horas de duração, onde o grupo especial, após levantamento do local, uma casa com três pavimentos, recebeu a ordem de entrar no ambiente e libertar à força as pessoas que lá estavam, com ordem de prender os dois marginais. Ainda restavam dois reféns e as negociações não estavam rendendo(segundo o Cmt da Unidade). Até hoje ainda acho que o Cmt queria um pouco de ação em sua vida( e eu também, mas não desejava que fosse daquele jeito).

 Voltando ao grupo especial. Das três opções apresentadas pelo Ten e pelo Sgt, nenhuma delas foi aprovada, sob a justificativa de que eram simples demais(?). O Cmt deveria aprovar a menos perigosa, segundo a avaliação dele, pois a responsabilidade é exclusiva do Cmt, apesar de serem os membros do grupo especial, os protagonistas da ação.

O plano apresentado pelo Cmt exigia a abertura de uma porta, com ferramentas especiais, um aríete, e noutro cômodo, segundo ele, uma granada de luz e som deveria ser empregada antes de acessar o ambiente. O detalhe é que ele foi alertado pelos dois membros do grupo sobre a belíssima parede de vidro temperado, que poderia não suportar a pressão da granada e com isso causar um pequeno atraso no time. Vá e vença garoto!!

Portas de vidro temperado.

Já esperando um resultado parecido com o que foi citado acima, a operação iniciou-se, a porta principal foi aberta sem muito esforço e quase que silenciosamente, com a ajuda da distração feita pelos negociadores, mas o emprego da granada, como nossa bola de cristal avisou, causou a ruína de uma parede de vidro temperado de aproximadamente 2,10m(altura) por 4,5m(largura). Nosso plano principal era fazer uma entrada silenciosa até o ponto mais próximo, retirar os reféns com a ajuda de dois escudos e manter os marginais na sala, somo foi feito, conforme adiante.

Uma olhada rápida, e pronto!! Tudo limpo, limpo mesmo, sem contar que antes tínhamos uma espécie de porta para passar, sem problemas, mas agora o chão, que já era liso, estava cheio de pedaços de vidro.

Para nossa sorte, apesar da pouca luz, o negociador conseguiu manter os dois marginais na mesma sala, enquanto os 2 reféns eram retirados do ponto  (cheia de vidros), sem contar que um deles de chinelos, cortou-se algumas vezes. Tínhamos em nossas mãos um Sr. de aproximadamente 50 anos e uma outra pessoa em torno de 35 anos, não me recordo bem.

Os marginais ficaram na sala, com os olhos maiores do que os da Mônica, porque metade do grupo rapidamente dominou a única saída deles daquele cômodo enquanto outros três policiais retiravam os reféns. Um nova negociação iniciou-se, mas sem a presença de reféns agora. Esqueci de mencionar que o 16 caiu nos vidros, quando ia dominar o ponto de entrada onde os marginais estavam. Na hora de andar mais rápido, escorregou. Isso por causa dos vidros. Para ajudar o 16 a levantar, o 25 deu a mão, mas quase foi também, nessa hora o cotovelo do 16 foi ao chão, que belo corte, ficou completamente fora de situação. Éramos 10 policiais nesse dia.

Um pouco de energia na voz, boas recomendações do que não fazer principalmente, e os marginais entregaram-se um a um, sendo então presos, entregues à unidade de área e conduzidos à delegacia.

O Bombeiro realizou o atendimento do 16 e o 25 viu depois que teve um pequeno corte no joelho, pois nesta época não tínhamos joelheiras e nem cotoveleiras, por isso os dois se machucaram.

Apesar dos cortes, de todo o resultado favorável, se é que podemos avaliar assim, ficaram alguns ensinamentos neste dia.

1)   Cmt’s são os responsáveis por uma operação, mas o atores também possuem uma parcela, bem enorme, de responsabilidade também. Não deveríamos utilizar aquela granada por nada nesse mundo, pois sabíamos os riscos.

2)   Nem sempre dê ouvidos àqueles que são acostumados a lhe dizer o que fazer, principalmente se essas pessoas não possuem nenhuma experiência nesse tipo de ocorrência ou ação policial, mesmo sendo seu Cmt, poderíamos receber a ordem de entrar e resolver da nossa forma, abusamos da disciplina nesse dia.

3)   Antes de ter disciplina tenha respeito pela técnica, mas seja inteligente para aplicar e explicar isso ao seu mundo.

4)    Responder sobre as chances de sucesso é coisa de amador, não existem fórmulas matemáticas para este tipo de ação.

5)   Todo o planejamento visa reduzir riscos e buscar resultados aceitáveis do ponto de vista da segurança, mas isso não significa que vai sair de acordo com uma receita de bolo.

6)   Se não tem necessidade, se não vale o risco e nem é aceitável, uma técnica não deve ser empregada ou utilizado. (critérios de ação em gerenciamento de crises).

7)   E Cmt’s, peçam assessoramento, a não ser que estejam muito seguros do que estão fazendo, ou melhor, determinando que o façam.

Muito bem, o grupo recusou-se a pagar a parede de vidro temperado, alguns dias depois, pois a “sugestão“ de usar a granada não foi ideia nossa, praticamente foi imposta.

Rs! Um mês depois, o dono da casa veio atrás do prejuízo.

O Cmt ficou chateado com isso, e nossa conversa (mais uma discussão nervosa) continuava:

–       Mas Senhores, repetia o Cmt;

–       Não tem mas Chefe, o Sr que disse;

–       Vocês vão fazer o que eu estou mandando e ponto!

–       Foi feito, temos disciplina! Com licença!

Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.(Niestzche) 

Observação: Esse texto é apenas uma estória, mas qualquer semelhança com fatos reais, será mera coincidência.

Força e Honra! 

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About Carlos Melo

Especialista em Segurança Pública, formado pela Academia de Polícia Militar de Brasília (APMB, 1997). Exerceu cargo na Polícia da ONU (UNPOL) na Missão das Nações Unidas em Timor Leste(UNMIT -2008 e 2009), onde trabalhou em ações de investigador. Instrutor de alguns cursos na PMDF, dentre estes, do Curso de Operações Especiais, especialista em técnicas e táticas de resgate de reféns, tiro policial e gerenciamento de crises. Também ministrou palestra vários organismos públicos e privados, sobre ameaças de bomba e seqüestro relâmpago. Especialização Inteligência Estratégica e segurança da informação.

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