Não há dia fácil, no BOpE também!

O lançamento do livro Não Há dia Fácil, de Mark Owen[2], que também descreve a formação, treinamento, seleção e a vida dos integrantes da equipe verde do SEALS[3] americano, conduziu a nós, operações especiais a refletir diversas coisas a respeito de nosso processo de treinamento e seleção, para enfim, tornar-se um Caveira.

Em mim, essa reflexão ressurgiu a partir da leitura deste livro, pois é um sentimento que nasceu realmente desde a leitura de um livro escrito por outro autor, Chris McNab[4], que conheci através da indicação de um colega, Renato Paim, Oficial da Instituição, creio que ainda no ano 2000. Outros livros se seguiram após este e com isso, a oportunidade de comparar e aprimorar nossa capacidade, seja de operação ou na formação de outros profissionais.

As reflexões a que me refiro incidem diretamente no nosso processo de seleção e treinamento principalmente, pois nossas atividades e local de trabalho diferem daqueles profissionais. Será que estamos realmente na direção certa? Mesmo com toda a boa vontade? Obviamente nossas questões logísticas estão muito atrás do que retratam os livros e os filmes, pois não temos condições ainda de ter uma lanterna em cada mochila, um fuzil customizado; em algumas épocas nem fuzil tínhamos e imagine ter um painel, onde está escrito, acima da porta de nossa reserva de material, uma frase como essa: “você sonha, a gente realiza”. Paraíso!

E voltando à leitura dos diversos livros, quando o assunto é operações especiais, temos no conteúdo ou um romance exagerado, retratando como foi difícil completar uma missão, o desespero e sofrimento quando da morte de membros de uma equipe nas missões ou então sobre os desdobramentos e considerações políticas das diversas operações especiais, mas sempre levando-se em conta o lado romancista da estória.

O mistério do curso.

Pouco se escreve sobre treinamento e seleção, existe ainda um manto, justificável(?) de mistério, onde as instituições mantém em segredo a forma como formam seus homens de força e honra. Até mesmo nas conversas com nossos colegas de diversas unidades percebemos aquele ar de segredo a respeito de como são formadas estas pessoas para as diversas atividades especiais. Existe, além do mistério, uma guerra de vaidades, onde cada um, pelo que me parece, faz questão de declarar que sua etapa de formação foi a mais cruel. Chega a ser engraçado. Uma marcha de 10 km, tornam-se 100 km, 7 dias, tornam-se facilmente  15 dias sem água, descanso ou comida e assim por diante.

Os dois livros que mencionei citam muita coisa sobre o processo de treinamento de operadores. No livro de McNab incialmente, uma observação bem interessante, que versa sobre a personalidade do homem que veio participar dos primeiros treinamentos e de toda a sua origem, ou seja, o homem vinha do campo. E por conta desta origem, já acostumado com a ausência de conforto, o treinamento incluía meios mais difíceis e digamos assim, mais cruéis para preparação de seus profissionais. Eu brinco com meus colegas e chamo essa época de tempos românticos.

Com o passar dos anos, o próprio autor menciona a alteração nos homens que se interessaram pelo treinamento e com isso, a exigência de que o método de seleção também se alterasse. Não possuem mais tripas de porco apodrecida em campos de rastejo, o que era comum tempos atrás, este é apenas um pequeno exemplo. Outro ponto a considerar, foi que anos atrás, a tecnologia não era presente nestas ações e hoje, praticamente somos dependentes dela para cumprir  as nossas missões, não podemos negar isso. A geração vídeo game veio com força, mudou a forma como iremos trabalhar nossos candidatos.

A leitura de Mark Owen me deixou ainda com um boa expectativa, principalmente no que diz respeito ao modelo do processo de seleção e treinamento que realizamos no COESP[5].  O que mais me chamou a atenção foi a época em que tudo se passa no livro, primeira década do ano 2000, mais precisamente nos anos 2001 a 2009, estes são os anos das atividades citadas no livro. Sem contar que o autor ingressa nas atividades de operações especiais em 1998, um ano antes de mim. Conclusão, o livro é recente e atual no que diz respeito a todo tipo de atividade, desde o treinamento básico à conclusão da missão mais difícil.

Na leitura pude notar as explicações do autor para a forma como os instrutores “preparavam“ seus alunos para provas diversas ou para simples treinamento considerados de rotina. Desde simples exercícios físicos realizados repetidamente até o esgotamento, além da prática de empurrar veículos à noite toda por um pátio asfaltado, e outros, tudo isso com o objetivo de reproduzir o desgaste do ambiente real de combate.

O ambiente de combate reproduzido.

O autor enfatiza diversas vezes e com veemência, de que é impossível reproduzir o ambiente de combate e justifica com isso a quantidade e até mesmo a intensidade dos exercícios físicos, bem como o nível de criatividade dos instrutores em dificultar a vida dos operadores e candidatos a operadores.

O foco de todo treinamento é a missão. E todo tipo de dificuldade é imposta com o objetivo de medir a capacidade do operador em se superar e manter seu status técnico, físico e mental, principalmente após a realização atividades desgastantes.

O mais impressionante é que da mesma forma que possuem material para trabalhar, possuem material para treinar, treinar e treinar. Não há limites logísticos quando o objetivo final seja salvar vidas ou mantê-los devidamente treinados para que não sejam alvos fáceis para um qualquer. Na nossa realidade brasileira, ainda necessitamos mudar, e não é um pouco, precisamos mudar e muito. O orçamento é baixo e as possibilidades  de aquisição são difíceis, em virtudes de nossas Leis e mercado para aquisições.

Conclusões.

E após ler estes pontos nestes livros, retornei minha mente ao meu treinamento inicial. Toda vez que xingava o então SGT[6] Delgado, o fazia porque não conseguia entender as razões de cada exercício que eu e outros tantos considerávamos sem necessidade, onde na verdade, tudo tinha um propósito, repito tudo tinha um propósito.

Em relação às formas de “preparar“ os homens para suas tarefas no treinamento básico, acredito que não estamos na direção errada, só nos falta estrutura e principalmente muito apoio logístico.

A força vontade nós temos, a coragem também, além de muito orgulho. O que nos motiva? Na verdade não sabemos ainda!

Ainda estamos em constante evolução, pois procuramos saber de onde viemos e estamos à procura de um ambiente favorável para a formação de nossos operadores especiais. Este ambiente esbarra em diversos obstáculos, no ego de diversas pessoas, inclusive o nosso – somos humanos também. Cada mudança é avaliada, inclusive com a participação de pessoas que passaram pelo grupo e estão fora dele, chamamos a isso de termômetro. Vem dando certo, pelo menos o que está sob nosso controle.

Saibam todos que a todo dia nos preocupamos com nossas obrigações institucionais, a de nunca envergonhar a nossa fé, nossa família ou os nossos camaradas e por isso sabemos muito bem, que por conta dessas cobranças morais, não há dia fácil no BOPE. Na verdade, nunca houve.

Força e Honra!

Carlos Eduardo Melo de Souza – Major QOPM[7]


[1] Batalhão de Operações Especiais.

[3] A sigla da unidade é derivada de sua capacidade em operar no mar (sea), no ar (air) e em terra (land).

[5] Curso de Operações Especiais.

[6] Sargento.

[7] Ingressou na PMDF em 1995, formado em Operações Especiais(1999), atirador policial de precisão(2005) e Operações Táticas(2006) pelo Comando de Operações Táticas – Polícia Federal. Investigador da ONU em Timor Leste – 2008-2009.

Baixe este arquivo aqui: Não há dia fácil no BOPE.

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About Carlos Melo

Especialista em Segurança Pública, formado pela Academia de Polícia Militar de Brasília (APMB, 1997). Exerceu cargo na Polícia da ONU (UNPOL) na Missão das Nações Unidas em Timor Leste(UNMIT -2008 e 2009), onde trabalhou em ações de investigador. Instrutor de alguns cursos na PMDF, dentre estes, do Curso de Operações Especiais, especialista em técnicas e táticas de resgate de reféns, tiro policial e gerenciamento de crises. Também ministrou palestra vários organismos públicos e privados, sobre ameaças de bomba e seqüestro relâmpago. Especialização Inteligência Estratégica e segurança da informação.

One response to “Não há dia fácil, no BOpE também!”

  1. Henriques Andre says :

    acho que a imformacao contida é util!

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